A versão que eu era não voltou

Um texto sobre renascimento pessoal e as versões de nós que não sobrevivem ao caminho.

Eu estava no trabalho, naquele intervalo entre uma entrega e outra, quando vi uma reflexão que uma amiga tinha compartilhado nos stories. Li a frase mais de uma vez: “Eu não sou mais a pessoa que costumava ser, porque ela não sobreviveu. Eu sou o que veio depois.” Fiquei olhando para a tela porque entendi de imediato o que ela queria dizer, embora ainda não soubesse dizer aquilo sobre mim com a mesma clareza. Havia algum tempo eu percebia mudanças no meu jeito de reagir, de confiar e de permanecer em certos lugares, mas continuava esperando que tudo voltasse ao normal, como se a versão que eu conhecia de mim estivesse apenas cansada e precisasse de um tempo para reaparecer.

Demorei a admitir que algumas partes nossas não voltam. Uma relação termina e a gente descobre que já não se entrega do mesmo jeito; um trabalho perde o sentido e aquilo que antes parecia suportável começa a pesar; um limite que não conseguíamos colocar finalmente sai da nossa boca, junto com o medo de decepcionar alguém. Nem sempre existe um acontecimento capaz de explicar sozinho essa mudança. Às vezes, ela vai acontecendo enquanto seguimos trabalhando, respondendo mensagens e cuidando do que precisa ser feito, até que um dia percebemos que estamos tentando agir como uma pessoa que já não conseguimos ser.

Acho que é por isso que mudar também pode parecer um luto. Eu não olho para o meu eu de antes como alguém ingênuo que precisava desaparecer, porque sei o quanto ele fez força para sustentar situações que não sabia como deixar. Houve coisas às quais me agarrei por mais tempo do que gostaria, culpas que carreguei sem precisar e momentos em que insisti em parecer bem porque não tinha energia para explicar o que acontecia comigo. Aquela versão tinha seus limites, mas também me trouxe até aqui; sentir falta dela não significa querer viver tudo de novo, significa reconhecer que havia ali partes minhas das quais foi difícil me despedir.

O complicado é que as pessoas nem sempre percebem quando essa despedida acontece. Continuam esperando a mesma disponibilidade, as mesmas respostas e até a mesma tolerância, enquanto a gente ainda tenta entender por que certas conversas passaram a incomodar tanto ou por que já não cabe numa relação, num trabalho, numa ideia antiga de si mesmo. Eu também me cobrei por isso, como se mudar de posição fosse falta de coerência e como se colocar um limite apagasse todo o carinho que existiu antes. Só que permanecer igual, quando algo dentro de nós já mudou, também cobra um preço.

O que apareceu depois não foi uma versão melhor e pronta de mim. Em alguns momentos fiquei mais quieto, em outros consegui ser mais firme, mas ainda há dias em que me sinto inseguro e tenho saudade da facilidade com que eu confiava. Passei a prestar mais atenção quando me diminuo para caber, quando confundo afeto com obrigação de permanecer e quando digo que está tudo bem apenas para evitar uma conversa difícil. Nem sempre consigo fazer diferente, e talvez por isso eu desconfie tanto das histórias em que a dor termina com uma pessoa nova, forte e agradecida por tudo o que viveu. Há perdas que eu teria preferido não conhecer.

Volto à frase daquela amiga porque ela não me pede para comemorar a mudança, apenas para olhar com honestidade para quem veio depois. Ainda reconheço muito de quem fui, inclusive nas coisas que me fazem falta, mas já não consigo prometer que aquela versão voltará inteira. Por enquanto, estou tentando não apressar esse encontro: agradecer pelo que meu eu de antes sustentou e conhecer, com o tempo que for preciso, a pessoa que continua aqui.


Dica de leitura:

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