Às vezes a vida pede algo simples e brutal. Que a gente tenha coragem de ir embora.
Eu nasci em Coronel Fabriciano, em Minas Gerais. Só que cheguei ao Espírito Santo com menos de um ano de idade, então praticamente toda a minha vida aconteceu lá. Por isso eu costumo dizer que sou 99% capixaba. O 1% mineiro aparece em situações muito específicas. Principalmente quando tem pão de queijo envolvido.
Foi no Espírito Santo que a minha vida realmente começou. Foi lá que fiz amigos que atravessaram anos comigo, onde estudei, cresci, aprendi uma profissão e comecei a descobrir quem eu era. Vitória guarda pedaços muito importantes da minha história. Aquela cidade conhece versões minhas que talvez nem existam mais. Lugares que ainda sabem meu nome mesmo quando ninguém está olhando. Ruas que carregam lembranças que só fazem sentido para quem viveu ali.
Durante muito tempo eu achei que ficar era uma forma de lealdade. Lealdade à história, às pessoas, às memórias que foram se acumulando como fotografias dentro de uma caixa. Existe um tipo de conforto em permanecer onde tudo já nos conhece. As ruas são familiares, os cheiros são conhecidos, os caminhos não exigem mapa.
Só que o problema do conforto é que ele também pode virar uma espécie de anestesia.
A vida começa a repetir os mesmos dias sem pedir licença.
Em algum momento eu percebi que algo dentro de mim estava inquieto. Não era exatamente infelicidade. Era mais parecido com a sensação de que a vida estava andando em círculos enquanto alguma parte de mim queria atravessar uma porta que ainda nem estava completamente visível.
E atravessar portas quase nunca é simples.
Mudar de cidade parece simples quando visto de fora. Como se fosse apenas arrumar algumas malas e seguir viagem. Mas por dentro a história é outra. Mudar significa mexer em raízes. Significa deixar para trás lugares que conhecem a sua história e aceitar que uma parte da sua vida vai ficar naquele endereço.
Quando surgiu a possibilidade de voltar para São Paulo, eu senti duas coisas ao mesmo tempo. Um chamado silencioso para uma grande mudança e um medo enorme de reencontrar sensações que eu já conhecia bem.
São Paulo tem uma energia que impressiona e ao mesmo tempo sufoca. Nunca dorme, nunca desacelera, nunca te deixa esquecer que tudo está acontecendo rápido demais. Existe uma tensão permanente no ar. Pessoas correndo, trânsito interminável, buzinas, sirenes, agendas cheias. Uma urgência constante.
Eu me lembro de caminhar entre multidões e ainda assim sentir uma solidão difícil de explicar. A cidade oferece tudo, mas cobra um preço alto em silêncio, em tempo, em paz.
Por isso a ideia de voltar carregava também um certo aperto no peito.
Mas dessa vez era diferente.
Não era a capital.
Era o interior. Era Leme.
Vitória sempre foi uma cidade que me acolheu. Era o lugar onde eu sabia exatamente onde comer, onde caminhar e onde encontrar silêncio quando precisava. E tinha o mar das manhãs de canoa havaiana, do sol nascendo devagar, do som das remadas na água e da turma da Almaviva Va’a começando o dia junto. Existe algo muito forte em pertencer a um lugar. Perceber que parte da sua história também ficou ali.
E sair disso não é apenas mudar de endereço. É aceitar que você vai precisar reaprender coisas básicas. Novas ruas. Novos hábitos. Pessoas novas.
Nos dias antes da mudança eu senti uma mistura estranha de coragem e tristeza. Como se eu estivesse dizendo adeus para uma versão de mim mesmo.
Algumas versões nossas ficam para trás.
Chegar em Leme foi silencioso. Cidade menor, ritmo diferente, uma calma que no começo até causa estranhamento para quem viveu muito tempo em cidades maiores.
Nos primeiros dias tudo parecia provisório. As ruas ainda não tinham memória comigo. Os lugares ainda não tinham histórias. Eu caminhava observando tudo como quem entra em um filme no meio da história.
E foi difícil.
Mais difícil do que eu imaginei admitir para mim mesmo.
Existe uma solidão discreta quando você começa de novo em algum lugar. Pequenas coisas pesam mais do que deveriam. Um café tomado sozinho. Um domingo que parece longo demais. O silêncio da casa no fim da noite, quando tudo fica quieto e você percebe que ainda não conhece quase ninguém por perto.
Mas aos poucos algo começou a mudar.
Com o tempo eu fui percebendo detalhes que talvez passassem despercebidos para quem sempre viveu aqui.
Aqui as pessoas dão bom dia.
Pode parecer um detalhe pequeno, mas não é. Existe algo profundamente humano em caminhar pela rua e perceber que as pessoas se olham, se reconhecem, trocam um cumprimento simples. Um gesto pequeno que lembra que ainda existe comunidade.
Em Leme as pessoas são receptivas. Existe uma gentileza natural, uma sensação de acolhimento que não precisa ser anunciada. Ela simplesmente acontece.
E talvez tenha sido isso que mais me tocou.
Sem perceber eu comecei a reconstruir rotina, olhar diferente para as coisas, criar novos caminhos dentro da cidade. Pequenos gestos que antes eram automáticos passaram a ter peso. Escolher um mercado. Descobrir uma padaria. Aprender o ritmo das ruas.
Hoje eu olho para essa cidade com um carinho que nasceu devagar.
Leme não é Vitória. Nunca vai ser.
Mas também não precisa ser.
Porque mudanças não são sobre substituir uma história por outra. São sobre continuar escrevendo.
Hoje eu entendo que sair de Vitória não foi abandonar uma parte da minha vida. Foi reconhecer que algumas fases pedem movimento. A gente cresce, muda, aprende e às vezes precisa atravessar distâncias para descobrir quem está se tornando.
Vitória continua sendo um pedaço enorme da minha história. A cidade onde muitas das minhas raízes nasceram.
Mas Leme virou meu lar.
Virou o lugar que eu escolhi para viver por um tempo que ainda não sei medir.
Talvez a vida seja exatamente isso.
Seguir em frente.
E aprender a chamar de lar um lugar onde as pessoas ainda dizem bom dia na rua.
Dica de leitura:
- A vida que ninguém vê – Eliane Brum






Eu fiz o caminho quase inverso, saí do interior no ES (Praia Grande) para a muvuca de um lugar onde todos estão cheios de compromissos e sempre com pressa em SP (Alphaville)
Bem desafiador, sucesso sempre!
Esse texto me fez refletir…Quantas vezes a vida nos convida a recomeçar. A mudança pode ser de caminhos, de prioridade, de sonhos. Pode ser dentro da gente.
Ótimo texto, parabéns!
Obrigado Fe, saudades minha amiga.