Há pouco mais de um ano, publiquei o primeiro texto deste blog. Ele se chamava Planejamento, propósito e resistência e falava sobre a dificuldade de fazer um bom trabalho quando o discurso de uma empresa aponta para uma direção, mas as decisões do dia a dia seguem para o lado contrário.
O que eu não contei é que aquele texto surgiu enquanto eu encerrava uma fase profissional importante da minha vida.
Eu tinha decidido sair.
Não havia uma proposta melhor me esperando nem grande plano para o que aconteceria depois. Eu estava apenas admitindo algo que havia tentado negar: já não acreditava que conseguiria fazer diferença naquele lugar.
Por algum tempo, tentei sustentar o que havia de bom e acreditei que conversas honestas poderiam mudar algumas decisões. Hoje percebo a vaidade dessa insistência, como se minha capacidade de trabalhar e argumentar fosse suficiente para transformar um ambiente inteiro.
Nem sempre é.
Existem lugares que convivem muito bem com as próprias contradições. Falam de colaboração enquanto premiam quem sabe ocupar os espaços certos. Dizem valorizar a sinceridade, mas preferem quem não cria desconforto. Defendem que as pessoas importam, desde que não atrapalhem algum interesse maior.
Aos poucos, comecei a me incomodar com a pessoa que eu precisava me tornar para continuar ali.
Passei a medir palavras, evitar conversas e calcular o custo de defender certas posições. Continuava trabalhando e tentando apoiar quem estava por perto, mas já não me reconhecia naquele ambiente.
Quando finalmente decidi sair, achei que sentiria liberdade. O que apareceu primeiro, porém, foi a dor de reconhecer que eu já sabia que aquela fase precisava terminar.
Não porque tudo tivesse sido ruim. Conheci pessoas que respeito, participei de projetos importantes e vivi experiências que fazem parte da minha história. Talvez por isso sair tenha sido tão difícil.
Também senti que estava abandonando gente que não tinha criado aqueles problemas. Pensei nas ocasiões em que poderia ter me posicionado com mais firmeza, mas precisei admitir que, algumas vezes, fiquei em silêncio porque falar teria um preço.
A política de um ambiente não destrói alguém de uma vez. Ela entra devagar, na opinião que guardamos, na situação errada que deixamos passar e na pessoa que não defendemos por medo de nos tornarmos o próximo problema.
Eu não gostava do que via, mas me assustou perceber que estava começando a me acostumar.
Foi nesse momento que sair deixou de ser apenas uma escolha profissional. Tornou-se uma tentativa de preservar alguma coisa em mim que ainda não havia sido engolida por aquela dinâmica.
O primeiro texto deste blog veio desse conflito.
Eu ainda não conseguia falar diretamente sobre o que tinha vivido, por isso escrevi sobre planejamento, propósito e resistência. Usei ideias profissionais para organizar uma experiência que continuava bagunçada dentro de mim. Era uma maneira de começar a dizer, mesmo sem dizer tudo.
Depois vieram textos sobre liderança, relações, poder, tecnologia, injustiça, perdas e recomeços. Aos poucos, o blog deixou de ser apenas um espaço para compartilhar opiniões e passou a ser o lugar onde tento compreender o que vivi e aquilo que muita gente sente, mas nem sempre consegue colocar em palavras.
Escrever não mudou o passado nem corrigiu minhas omissões. Também não transformou aquela decisão em uma história bonita, na qual tudo deu certo depois que tive coragem de ir embora.
Mas impediu que aquela experiência tivesse a última palavra sobre quem eu seria depois dela.
Este blog não nasceu de um planejamento editorial ou da certeza de que eu tinha algo importante para ensinar. Ele começou com uma decisão difícil e com coisas que, durante muito tempo, eu não consegui dizer em voz alta.
Hoje, quando olho para tudo o que escrevi desde então, percebo que sair não foi apenas o fim de uma fase profissional.
Foi o começo deste lugar.
No início, eu escrevia para entender o que havia acontecido comigo. Com o tempo, chegaram mensagens de pessoas que também tinham permanecido tempo demais, guardado opiniões ou suportado ambientes que já não faziam sentido.
Foi assim que percebi que alguns conflitos podem ser profundamente pessoais sem serem apenas nossos.
Talvez eu tenha começado a escrever para não deixar aquela experiência definir quem eu seria depois dela. Mas foi quando vocês se reconheceram nessas palavras que este lugar deixou de ser apenas meu.
Obrigado a cada pessoa que leu, compartilhou um texto ou confiou em mim para contar a própria história.
Eu precisei sair para recuperar a minha voz. Vocês me mostraram que ela não estava falando sozinha.
Dica de leitura:
- Agilidade emocional – Susan David





