Durante muito tempo da minha vida, eu preferi o silêncio.
Não porque eu não tivesse o que dizer, mas porque o medo gritava mais alto do que a minha voz. Medo de falar em público. Medo de errar. Pavor de ser julgado. Medo de parecer bobo. Insegurança de ser eu mesmo. E talvez você, que está lendo isso agora, saiba exatamente do que estou falando.
Na infância, esse medo foi me moldando silenciosamente. Me lembro das vezes em que a professora passava trabalho em grupo e eu me oferecia para fazer os cartazes, os slides, escrever todo o conteúdo, só para não ser a pessoa que teria que apresentar na frente da turma. Me lembro da sensação física do medo: as mãos suadas, o coração acelerado, a boca seca.
Lembro de inventar desculpas para não ir à escola em dias de apresentação. E de chegar em casa me sentindo menor, como se tivesse perdido mais uma batalha para um inimigo invisível.
Esse medo, aparentemente pequeno, me acompanhou durante anos. Ele me fez perder oportunidades. Me impediu de mostrar ideias. Me fez ser mais tímido do que eu realmente era. E mais quieto do que minha mente queria ser.
Mas o tempo passou. Entrei no mercado de trabalho, mergulhei no universo da tecnologia, do marketing, dos produtos. A vida foi me levando por caminhos incríveis, onde pude me desenvolver, aprender, crescer. Mas o medo… ainda estava lá. Disfarçado. Escondido. Até que, um dia, ele foi colocado à prova.
O ano era 2013, e meu medo estava em silêncio.
Minha primeira convenção na Wine. Um evento grande, com pessoas de todas as áreas, apresentações no palco, luzes, som, expectativa no ar. E eu ali, nos bastidores, focado em algo que me enchia de orgulho: o MiniW. Um sistema que conectava vários outros, facilitando a vida de quase todo mundo na empresa. Trabalhar nesse projeto era estar no meu lugar ideal, fazendo diferença sem precisar aparecer. Longe dos holofotes, como eu sempre preferi.
Até que, alguns dias antes do evento, recebi uma “notícia” que mudaria tudo. E coloco entre aspas porque não foi bem uma pergunta ou sugestão… Foi mais um aviso direto do nosso diretor de TI, Jorge Tung: “Você vai apresentar o projeto na convenção.”
Simples assim. Sem margem para debate. Sem plano B. E, sinceramente, se tivesse um botão de desaparecimento naquele momento, eu teria apertado.
Nos dias que se seguiram, vivi uma verdadeira montanha-russa emocional. O medo voltou com tudo, do jeito que só quem já passou por isso sabe.
Aquela voz na minha cabeça não dava trégua: “Você não vai conseguir”, “Vai travar”, “Todo mundo vai rir de você.” Perdi o sono por várias noites. Ficava tentando ensaiar o que dizer, mas logo desistia, convencido de que nada ia funcionar. Pensei em pedir para outra pessoa apresentar no meu lugar. Pensei, sinceramente, em inventar alguma desculpa para não ir, qualquer coisa que me tirasse do evento.
Teve um dia em especial, faltando pouco tempo para a convenção, em que a ansiedade foi tanta que chorei de desespero. Não era só medo do palco, era o medo de falhar, de me expor, de decepcionar quem confiava em mim. Era como se todos aqueles anos em que eu me escondi na escola estivessem voltando, todos de uma vez.
Eu estava apavorado. Mas, no fundo, também cansado de fugir.
E então, o dia da convenção chegou. O tal dia que parecia tão distante e que agora batia à porta com força. Coração acelerado, mãos frias, pensamento embaralhado. Respirei fundo, peguei o microfone e subi no palco.
Não faço ideia de quantas pessoas estavam na plateia. Também não lembro exatamente o que eu disse. Talvez tenha falado rápido demais, talvez tenha pulado alguma parte, talvez tenha inventado coisas no susto. Mas falei. E fiquei lá. Inteiro. Mesmo com o medo gritando dentro de mim como um garoto medroso.
Quando desci do palco, não teve fogos… mas, por dentro, eu me sentia como se tivesse vencido a final da minha própria maratona interna. Algo em mim tinha virado uma chave. Eu estava vivo e, mais do que isso, finalmente acordado. Pela primeira vez, senti que tinha atravessado a fronteira invisível entre o “eu não consigo” e o “eu fui lá e fiz”.
E, por mais clichê que pareça, o medo não era tão grande quanto eu imaginava.
O único registro que tenho daquele dia é a foto que está neste artigo. Uma imagem simples, mas que carrega uma transformação imensa. Naquele clique, está congelado um dos momentos mais simbólicos da minha vida profissional e pessoal. Porque, naquele palco, eu não estava apenas apresentando um projeto. Eu estava me reapresentando ao mundo.
A partir dali, tudo mudou.
Aos poucos, comecei a falar mais. Apresentar mais. Participar de eventos. Liderar reuniões. Compartilhar ideias. Aprendi que a vulnerabilidade de se expor pode ser uma ponte poderosa, não uma fraqueza. E que ninguém está esperando que você seja perfeito. As pessoas só querem sentir verdade.
E, ironicamente, quanto mais eu falava, mais eu me ouvia. Mais eu entendia quem eu era. Porque existe uma conexão profunda entre a voz e a identidade. Quando a gente se cala, a gente se desconecta de partes importantes de nós mesmos.
Hoje, trabalhando com inovação, com comunicação, com estratégia, percebo que aquele medo foi, na verdade, um grande professor. Ele me mostrou que coragem não é ausência de medo. Coragem é decisão. Coragem é um passo depois do outro. É subir no palco tremendo e mesmo assim continuar.
E por que estou te contando tudo isso?
Porque talvez você também tenha um palco esperando por você. Talvez você também tenha uma ideia engasgada, uma história que merece ser contada, uma mensagem que pode transformar outras vidas e a sua.
E eu quero te dizer, do fundo do coração: você não está só.
Todos nós temos medos. Todos nós já sentimos vergonha, insegurança, o desejo de fugir. Mas também temos uma força enorme guardada que só aparece quando a gente para de correr e decide encarar.
Não precisa ser perfeito. Nem precisa ser no palco de uma convenção. Pode começar falando em uma reunião, dando uma ideia no grupo do trabalho, fazendo um vídeo curto, escrevendo um texto. O importante é dar o primeiro passo.
E se você lembrar de mim, lembre disso: em 2013, um garoto que se escondia na escola subiu no palco com as pernas bambas e desceu de lá com a alma inteira.
Talvez o seu palco seja hoje.
Dica de leitura:
- Como falar em público e encantar as pessoas — Dale Carnegie
Se você chegou até aqui, valeu demais por dedicar seu tempo. Se esse texto fez sentido, manda para alguém que também vive mergulhado nesse universo de produto, marketing e tecnologia.
Toda semana, tem conteúdo novo por aqui com provocações, aprendizados reais e aquela dose de desconforto que move a gente para frente.





