Tô falando de um tempo estranho.
Um tempo sem estratégia, sem pauta, sem performance.
Tempo em que os dias passavam sem notificação.
Sou da geração dos anos 80. A que viveu a infância ao ar livre e a vida adulta diante de telas. A que sabia brincar sem audiência e hoje tenta lembrar quem é fora da vitrine.
Cresci com TV de tubo e parquinho de areia. Onde os amigos estavam sempre perto sem notificação. Mas fui aprendendo, aos poucos, a me adaptar ao feed. A me comunicar, me promover, me explicar. Não porque quis, mas porque, de algum jeito, pareceu necessário para continuar existindo.
A gente foi a última geração a lembrar do mundo antes da vitrine. E talvez por isso, sinta falta do que nem sabe nomear.
Vi o mundo antes da conexão constante. E não, não romantizo. Tinha solidão também. Mas era uma solidão sem wi-fi, o que, curiosamente, tornava a gente mais presente até nos vazios.
A gente existia sem precisar parecer interessante.
Sem precisar render.
Sem precisar convencer ninguém de nada.
Tinha dias que simplesmente passavam. Momentos que se perderam e talvez por isso, tenham sido mais nossos. A tristeza podia só doer. O descanso podia ser real. O amor não precisava de legenda. Nem trilha, muito menos filtro.
Hoje, viver exige planejamento. É preciso ter tom, persona, pauta. E de preferência: engajamento orgânico.
E eu entendo. Trabalho com isso. Ensino isso. Vendo isso.
Mas às vezes, no meio de uma campanha, bate um desconforto. Um incômodo que não passa. Como se, no esforço de construir uma marca, a gente estivesse, pouco a pouco, perdendo o rosto.
Será que a gente não confundiu mostrar sentido com ter sentido?
Cresci vendo meus pais viverem com menos. Menos palco, menos audiência, menos estratégia.
A vida deles não pedia aplausos. Bastava acontecer.
Eles podiam trabalhar e pronto.
Podiam estar tristes e pronto.
Podiam não ter bio. Não ter marca. Não ter “propósito comunicável”.
Eles só… viviam.
E nós?
Viramos vitrines ambulantes.
Gente que precisa parecer brilhante o tempo todo mesmo quando mal consegue levantar da cama. Mesmo quando tudo o que quer é silêncio.
A geração pós-2000 já nasceu sob holofotes. Eles não aprenderam a criar uma persona, foram moldados por uma.
Aprenderam a performar antes de saber quem são.
Porque tudo é conteúdo. Até o silêncio precisa de trilha.
As pausas precisam ser justificadas. As vulnerabilidades precisam ser esteticamente apresentáveis. O descanso precisa parecer produtivo. Até o tédio virou uma oportunidade de engajamento.
A gente ficou no meio do caminho, viu o mundo mudar e teve que mudar junto, mesmo sem querer.
Sabemos o que é estar presente e sabemos o que é ser ignorado pelo algoritmo.
Buscamos sentido, mas não sabemos mais onde mora o real. E isso cansa.
E sim, eu sei que escrever esse texto também é me expor.
Também é conteúdo. Também é performance.
Não estou fora do jogo.
Sou do marketing.
Já editei frases para parecer mais inspirador.
Já postei sorrisos com sono.
Já escondi o cansaço atrás de uma copy que convertia.
Eu conheço essa engrenagem por dentro e talvez seja por isso que me inquieta tanto.
Porque existe um ponto em que a coerência com a marca começa a trair a coerência com a alma.
E eu não quero esquecer quem sou fora do personagem.
Ainda acredito na beleza do que não se publica.
Na dor que não precisa virar storytelling.
Na pausa que não precisa virar opinião.
Na alegria que não precisa performar relevância.
Então, se você chegou até aqui esperando um conselho… talvez eu te decepcione.
Isso não é um guia.
É um sussurro.
Um sussurro de quem ainda lembra da vida sem filtro.
De quem ainda sente falta do silêncio que não precisa justificar ausência.
De quem, no fundo, ainda acredita que viver sem palco não é pouco. É real.
Porque quando a câmera desliga, o que sobra é o que você realmente é.
E às vezes, só isso já deveria bastar.
Dica de leitura:
- Isso é Marketing – Seth Godin
Se esse sussurro te tocou de algum jeito, continua por aqui.
Nos próximos textos, prometo seguir buscando o que ainda é real sem fórmula, sem palco. Só presença.





