Talvez você não precise de mais uma resposta. Talvez precise de uma pausa.
A dor não avisa quando chega. Ela se instala devagar, como quem arruma as malas para ficar. Às vezes, tudo o que sentimos é o peso dela ocupando espaços que não sabemos nomear, uma presença silenciosa que aparece mesmo quando, por fora, parece que está tudo bem.
Outro dia, parei no meio da sala e percebi que não sabia mais o que estava sentindo. Era um domingo qualquer, mas eu estava cercado por ruídos internos. Tudo parecia normal e, ao mesmo tempo, havia alguma coisa errada. Não era tristeza, nem raiva, nem medo. Era uma sensação difícil de explicar, como se existisse um buraco crescendo aos poucos, um vazio que parecia me engolir pelas beiradas.
O curioso é que, olhando de fora, tudo ia “bem”. O trabalho caminhava, a saúde estava em ordem, eu tinha amigos, família e pessoas importantes ao meu redor. Mas, por dentro, alguma coisa tinha desmoronado em silêncio. E eu, como tantos homens que aprenderam a continuar funcionando mesmo quando estão sangrando por dentro, fiz aquilo que sempre fazemos: segui em frente, fingi que estava tudo bem, me ocupei e encontrei formas de não olhar diretamente para aquilo que estava acontecendo.
Passei semanas me entupindo de notícias, redes sociais, cafeína, projetos e livros que comecei, mas não terminei. Tudo para evitar encarar uma coisa que, no fundo, eu já sabia: aquele vazio não era falta de alguma coisa, era excesso. Excesso de cobrança, de expectativa e da necessidade de dar conta de tudo. A vontade constante de ser bom, forte, amável, admirável e, principalmente, alguém que nunca decepciona.
Foi só quando parei de correr que consegui escutar uma pergunta que mudou a forma como eu enxergava aquilo: e se o vazio não for um problema?
A gente aprende muito cedo a fugir da dor. Tentamos preencher qualquer espaço desconfortável com distrações, compromissos, produtividade, conversas superficiais ou qualquer coisa que impeça o silêncio de aparecer. O problema é que a dor não desaparece porque escolhemos ignorá-la. Ela espera. E, em algum momento, encontra outro caminho para voltar.
A minha voltou em forma de noites mal dormidas, irritação sem motivo aparente e uma vontade enorme de simplesmente desaparecer por algum tempo. Não porque eu queria deixar de viver, mas porque estava cansado de sentir que precisava ser alguma coisa para todo mundo o tempo inteiro.
Demorei para entender que o que doía em mim não era exatamente a ausência de algo, mas a presença de uma demanda que nunca parecia satisfeita: o desejo de ser visto, reconhecido e amado. E quanto mais eu buscava isso fora, maior parecia ser o vazio dentro de mim, porque nenhum reconhecimento externo consegue preencher aquilo que a gente abandona em si mesmo.
A virada aconteceu em um dia simples. Eu estava cansado, com o corpo pesado e com uma vontade enorme de desistir de tudo. E foi exatamente isso que eu fiz, mas não desisti da vida. Desisti de resistir o tempo inteiro.
Sentei no chão da sala e chorei como há muito tempo não chorava, sem tentar controlar, explicar ou transformar aquele momento em alguma lição. Apenas deixei que aquilo existisse.
Naquela noite, eu não encontrei todas as respostas que procurava. Mas encontrei algo talvez mais importante: encontrei a mim mesmo no meio daquele caos, daquela falta e daquela dor.
E foi ali que comecei, de verdade, a me reconstruir.
Hoje eu entendo que o vazio não é necessariamente um erro que precisa ser corrigido. Às vezes, ele é um espaço que a vida abre para que a gente perceba aquilo que deixou para trás. Um espaço para a pausa, para abandonar algumas versões de nós mesmos que já não fazem sentido e para permitir que alguma coisa nova possa surgir.
A dor ainda aparece. Ela faz parte da vida. A diferença é que hoje tento não fugir imediatamente quando ela chega. Tento sentar com ela, entender o que ela está tentando mostrar e aceitar que nem todo desconforto precisa ser eliminado rapidamente. Algumas dores carregam mensagens que só conseguimos ouvir quando paramos de lutar contra elas.
Se você chegou até aqui esperando uma técnica, um passo a passo ou uma promessa de alívio imediato, talvez eu decepcione você. Eu não tenho isso. Tenho apenas o relato de alguém que cansou de tentar parecer inteiro o tempo todo e decidiu olhar para as próprias fragilidades com mais honestidade.
Talvez você também esteja vivendo algo que ainda não consegue explicar. Talvez esteja cansado de procurar respostas para tudo ou tentando preencher cada silêncio antes que ele tenha a chance de dizer alguma coisa.
Eu não sei o que existe dentro do seu vazio, nem quanto tempo essa fase vai durar. Mas talvez você não precise correr para preenchê-lo imediatamente. Talvez, neste momento, seja suficiente parar, respirar e reconhecer que estar em pedaços também faz parte da experiência de estar vivo.
A dor não é sua inimiga. O vazio não significa que existe algo errado com você.
Às vezes, ele é apenas o lugar onde uma nova versão sua começa a ser construída.
Mas isso só acontece quando a gente encontra coragem para parar de fugir e finalmente escutar aquilo que estava tentando ser ouvido.
Dica de leitura:
- Em Busca De Sentido – Viktor E. Frankl
Se quiser seguir nessa caminhada comigo, acompanha os próximos textos aqui no blog. Prometo continuar trazendo reflexões honestas, sem fórmulas prontas, só o que realmente importa.





