Estou no mercado de trabalho há mais de 25 anos. Nesse tempo, passei por empresas diferentes, trabalhei com muita gente, ocupei posições distintas e vivi ambientes que me ensinaram tanto pelo que tinham de bom quanto pelo que eu jamais gostaria de repetir.
Depois de tanto tempo, uma coisa ficou bastante clara para mim: nem todo cansaço profissional vem do trabalho.
Existem dias em que você termina exausto porque trabalhou muito. Foram reuniões demais, decisões difíceis, problemas aparecendo ao mesmo tempo, prazos apertados e aquela sensação de que algumas horas a mais teriam ajudado. Esse tipo de cansaço eu entendo. Ele faz parte de qualquer carreira que envolva responsabilidade.
O outro tipo sempre me incomodou mais.
É o desgaste provocado pelas relações ao redor do trabalho.
Ao longo desses anos, vi muitas situações em que pessoas inteligentes gastavam mais energia tentando interpretar umas às outras do que tentando resolver o que realmente precisava ser resolvido. A reunião acabava, mas continuava no WhatsApp. Um comentário simples ganhava outras versões. Uma discordância virava leitura de intenção. Um problema que deveria reunir as pessoas em torno de uma solução acabava espalhando cada uma para um lado, tentando entender quem disse o quê, quem ficou incomodado e de quem seria a culpa no final.
E eu não escrevo isso de fora.
Eu também já participei desse jogo mais vezes do que gostaria de admitir. Já saí de reunião irritado e procurei alguém para reclamar antes de procurar quem tinha me incomodado. Já interpretei silêncio como desinteresse, discordância como teimosia e uma decisão ruim como algo pessoal. Com o tempo, percebi também como é fácil chamar de fofoca quando os outros fazem e de desabafo quando somos nós.
Algumas vezes minha percepção estava certa. Em outras, eu construí histórias inteiras sem sequer dar ao outro a chance de explicar o que estava acontecendo.
Talvez esse seja um dos maiores desperdícios das relações de trabalho.
A gente começa querendo resolver um problema e termina administrando versões, egos, inseguranças e interpretações.
Patrick Lencioni me ajudou a organizar algo que eu já tinha visto muitas vezes na prática: sem confiança, o conflito deixa de ser produtivo. A discordância deixa de ser sobre uma ideia e passa a ser sobre a pessoa. Admitir um erro parece perigoso. Pedir ajuda soa como fraqueza. E, pouco a pouco, as pessoas começam a gastar energia protegendo posição em vez de construir solução.
Simon Sinek toca em outra parte importante dessa mesma conversa quando fala sobre segurança. É difícil fazer um bom trabalho quando sentimos que precisamos nos proteger justamente de quem deveria estar olhando para o mesmo problema que nós. Nesse cenário, pensamos duas vezes antes de falar, calculamos como uma frase pode ser interpretada, escolhemos para quem podemos contar determinadas coisas e começamos a prestar mais atenção nas pessoas do que naquilo que precisa ser feito.
E isso não desperdiça apenas energia.
Desperdiça talento.
Quantas boas ideias deixam de aparecer porque alguém prefere ficar quieto? Quantos problemas demoram mais para ser resolvidos porque ninguém quer correr o risco de parecer responsável por eles? Quantas equipes poderiam ser melhores se gastassem menos tempo tentando se defender e mais tempo confiando que uma discordância não será usada como arma depois?
É aí que a empatia deixa de ser uma palavra bonita e começa a fazer sentido para mim.
Não estou falando daquela definição quase automática de se colocar no lugar do outro. Estou falando de algo mais difícil: suspender, por alguns minutos, a certeza de que você já entendeu a intenção de alguém.
Antes de concluir que a pessoa quis prejudicar você, perguntar. Antes de procurar uma terceira pessoa para comentar o que aconteceu, conversar com quem estava envolvido. Antes de transformar uma falha em julgamento de caráter, considerar que talvez exista um contexto que você ainda não conhece.
Empatia não resolve todos os conflitos. Confiança também não.
Pessoas vão continuar errando, decisões ruins vão continuar acontecendo e algumas relações profissionais simplesmente não vão funcionar.
Mas as duas fazem algo que, depois de mais de duas décadas trabalhando, considero cada vez mais importante: ajudam a gente a gastar energia resolvendo o problema certo.
Porque trabalho já exige bastante.
Hoje eu não espero encontrar ambientes sem conflito. Nem quero. Discordâncias fazem parte de qualquer lugar onde pessoas realmente pensam e se importam com o que estão fazendo.
O que ainda considero valioso é encontrar pessoas com quem seja possível conversar antes de acusar, perguntar antes de imaginar e discordar sem destruir a confiança construída até ali.
Porque problemas fazem parte. O desgaste desnecessário, não.
Dica de leitura:
- Os 5 Desafios das Equipes – Patrick Lencioni
- Explicar dá muito trabalho, me julgue e seja feliz





