Quem está lucrando com a sua insatisfação?

Ninguém vende uma vida nova sem antes plantar alguma insatisfação com a vida que você já tem.

Em algum momento, quase todo mundo olha para a própria vida e se pergunta se escolheu o caminho certo. Pode ser a profissão, o trabalho, um negócio ou aquela sensação chata de que as coisas estão andando devagar demais. Nem é preciso estar infeliz para isso acontecer, porque basta alguém aparecer mostrando uma realidade aparentemente melhor para aquilo que fazia sentido até ontem começar a parecer pouco.

Eu me lembro de uma conversa assim, muitos anos atrás, quando um conhecido tentou me convencer a entrar na Telexfree. Eu estava construindo minha carreira dentro de uma empresa, gostava do que fazia e não via problema nenhum naquele caminho, mas ele tratou minha escolha como falta de ambição. Disse que eu passaria a vida enriquecendo os outros, morreria sendo CLT e nunca teria liberdade porque não tinha coragem de aproveitar a oportunidade que estava bem na minha frente.

Não era alguém próximo e, mesmo assim, aquele papo ficou na minha cabeça por algum tempo. Eu não acreditei na proposta, mas a segurança com que ele falava me fez pensar se não estava enxergando alguma coisa que eu não conseguia ver. Esse tipo de promessa nem precisa convencer de imediato, porque basta plantar o medo de descobrir tarde demais que todo mundo avançou enquanto você ficou para trás.

A Telexfree não inventou esse roteiro, já que muito antes dela o marketing multinível misturava dinheiro, vontade de fazer parte, urgência e histórias extraordinárias de sucesso. A internet também não criou esse comportamento, apenas deu escala ao que antes dependia de sala de hotel, auditório cheio e conversa ensaiada. A mesma pressão passou a chegar todos os dias misturada com conteúdo, entretenimento e gente dizendo como devemos trabalhar, investir, empreender ou viver.

Isso não quer dizer que todo evento, comunidade ou encontro de empresários seja ruim. Existem espaços sérios, onde pessoas compartilham experiências, admitem erros e ajudam umas às outras, mas o problema começa quando a troca vira exibição e o encontro se transforma numa masturbação coletiva de ego. Cada um apresenta a versão mais bonita da própria história, enquanto dívidas, tropeços e decisões ruins somem da conversa como se nunca tivessem existido.

Você entra querendo aprender sobre negócios e sai comparando a sua realidade com a propaganda da vida dos outros. A empresa que crescia num ritmo saudável começa a parecer pequena, o emprego de que você gostava ganha cara de acomodação e uma carreira construída durante anos perde valor diante de alguém garantindo que liberdade de verdade é outra coisa. No fim, você pode até voltar para casa sem uma ideia nova, mas leva uma bela dúvida sobre tudo o que vinha fazendo.

É nesse ponto que o ego se junta ao medo de ficar de fora. Ninguém gosta de imaginar que existe uma sala onde as coisas importantes estão acontecendo enquanto ficou do lado de fora por falta de visão ou coragem. Quem não entra ouve que pensa pequeno, quem desconfia não tem mentalidade vencedora, quem prefere crescer no próprio ritmo está acomodado e quem para porque aquilo deixou de fazer sentido desistiu justamente antes da grande virada. É uma conversa muito conveniente para quem precisa transformar qualquer escolha diferente em defeito pessoal.

Toda essa fantasia começa a desmontar quando a gente admite o óbvio: dá para construir uma boa vida como CLT, empresário, consultor ou seguindo qualquer outro caminho. Só que, em algum momento, a palavra “comum” passou a soar quase como uma ofensa, como se trabalhar, crescer aos poucos, ganhar dinheiro sem transformar cada conquista em propaganda e construir alguma coisa no próprio tempo fosse pouco. Criamos uma cultura em que todo mundo precisa estar escalando, performando, vencendo e, claro, avisando aos outros que venceu.

O dia em que alguém consegue fazer você sentir vergonha da vida que escolheu, a venda já está praticamente fechada. Existe um mercado enorme vivendo dessa insatisfação, dessa distância entre aquilo que temos e aquilo que aprendemos que deveríamos querer. Ele não precisa provar que a vida oferecida é melhor, basta fazer a sua parecer menor.

Aquela conversa ainda volta à minha cabeça porque eu estava satisfeito construindo uma carreira até um conhecido aparecer e dizer que aquilo não era suficiente. Hoje o palco é outro, a apresentação ficou mais bonita e o discurso nos encontra várias vezes por dia, mas a pergunta continua desconfortável:

Quantas vezes você realmente quis outra vida e quantas vezes apenas aprendeu a desejar a vida que alguém precisava vender para você?


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