O lado sujo do jogo corporativo

Histórias que a sala de reunião nunca conta, mas que todo mundo já presenciou nos bastidores.

Entre a máquina de café sempre fazendo barulho, o cheiro de pizza das reuniões que viram noite e os discursos animados sobre “somos todos um time”, rola um jogo que nunca aparece nos slides de metas, mas que todo mundo conhece de cor.

Ele não tem trilha sonora nem aviso no Slack, mas move peças. Decide quem vai brilhar, quem vai ficar de lado e, aos poucos, fura o casco de quem ainda acredita que está todo mundo remando junto.

Esses dias, numa conversa que começou leve e terminou pesada, me peguei desabafando sobre tudo que já vivi e vi na minha carreira. Lembranças que ainda incomodam como se tivessem acontecido ontem. Histórias que foram machucando a confiança, abrindo pequenas rachaduras nas relações, até transformar o dia a dia naquele jogo de xadrez que eu nunca quis, nem tentei, aprender a jogar.

No meio desse papo, recebi um vídeo da Fernanda Souza. Ela dizia: “O outro está fazendo o que ele pode!”. Foi como olhar no espelho. Aquela frase resumiu boa parte do que venho observando há anos.

Porque, sim, existe gente que joga limpo. Gente que soma de verdade, que divide o que sabe e estende a mão sem fazer conta do que vai ganhar de volta. São essas pessoas que seguram as pontas quando o clima pesa e lembram que ainda existe trabalho feito com propósito.

Mas também tem o outro lado o calculista. Sorriso no rosto, conversa de corredor, convite para o café… tudo com um olho nos seus pontos fracos. Perguntas que parece curiosidade, mas são coleta de dados. Elogios que funcionam como isca. É a amizade de fachada, só para guardar munição para o dia certo.

Eu já vivi isso. Gente que parecia torcer por mim, que se oferecia para ajudar, que ouvia meus desabafos. Até que um dia, ouvi minhas próprias palavras distorcidas na boca de alguém, numa reunião feita para me prejudicar. O erro que confiei em sigilo reapareceu como peça no jogo.

E nem sempre a decepção vem no formato óbvio. Às vezes, não é fofoca ou distorção, é parceria que começa cheia de entusiasmo e termina com a porta fechada na sua cara. Já abri portas para muita gente, coloquei meu nome e minha credibilidade em jogo mais de uma vez. E vi alguns se voltarem contra mim na primeira oportunidade. Para alguns, ajuda não cria laço, cria atalho.

E é aí que percebo como esse tipo de ambiente pega na gente, como é fácil entrar nessa lógica sem nem se dar conta.

O pior desse jogo não dá para colocar numa planilha. Ele aparece no jeito que a sala fica silenciosa, nas ideias que a gente engole porque sabe que podem virar munição, no peso de gastar mais energia se blindando do que criando. É aquele cansaço que não tem número, mas que todo mundo sente.

Talvez seja por isso que, de vez em quando, me pego pensando: será que esse jogo é regra? Será que confiar sempre vai ser um risco alto?

Quero acreditar que não. Quero acreditar que é possível criar um espaço onde estratégia não seja usada para derrubar, mas para crescer junto. Quem sabe, se mais gente parar de dar corda para esse ciclo, a desconfiança vire respeito e essa disputa cansativa dê lugar à colaboração verdadeira. Não é simples. Mas é aí que a esperança nasce: quando a gente encara a dor e, mesmo assim, escolhe acreditar que dá para mudar.

Nesse ambiente, ingenuidade custa caro. Não significa viver com o pé atrás com todo mundo, mas saber que nem todo sorriso é parceria. Abrir demais sua vida pode ser como deixar o cofre aberto. Trabalhe junto, claro. Seja educado, sempre. Mas saiba separar colega de amigo essa diferença salva mais do que parece.

E é aí que lembro da frase da Fernanda Souza. No mundo corporativo, ela vale como alerta em dobro: tem quem faça o que pode para construir e tem quem faça o que pode para manipular.

Maturidade é entender que esses dois perfis convivem lado a lado. Sobreviver aqui vai além de ter competência, exige leitura de cenário, atenção a quem se aproxima e, muitas vezes, coragem para manter distância.

No fim, cada frase que você solta pode mudar o rumo das coisas. Uma palavra atravessada pode acender incêndio, e um silêncio bem calculado pode evitar muita dor de cabeça. No jogo de dentro do escritório, isso vale tanto quanto qualquer promoção ou nome no crachá.

O jogo existe, mas escolher não jogar sujo ainda é a maior vitória.


Dica de leitura:


Se quiser continuar essa conversa comigo, sigo pelo mesmo caminho: sem máscaras, sem suavizar verdades e sem aplaudir o jogo sujo. Apenas o que precisa ser dito, mesmo que incomode.

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