Se hoje fosse meu último dia

Uma despedida honesta, atravessada pela dor e pela escolha de continuar

Se hoje fosse meu último dia, eu não tentaria organizar minha história nem escolher as melhores palavras. Escreveria do jeito que vivi, com intenção, com falhas e com honestidade suficiente para não deixar dúvidas sobre o que foi amor. À minha família, eu diria antes de tudo obrigado: pelo começo, pelo chão, pelas raízes que nem sempre foram fáceis, mas sempre foram reais. Vocês me ensinaram muito mais pelo que viveram do que pelo que disseram, e carrego cada um em mim, inclusive nas partes difíceis, nas discordâncias, nos silêncios e nos conflitos que ajudaram a moldar quem me tornei.

Se em alguns momentos pareci distante, rígido ou ausente, não foi falta de amor, foi uma tentativa de sustentar peso em silêncio. Aprendi cedo a dar conta, nem sempre a pedir colo, e talvez por isso nem sempre tenha sabido demonstrar carinho do jeito esperado. O vínculo, porém, nunca foi frágil; foi humano, imperfeito e verdadeiro.

Aos meus amigos, os de infância, os de uma fase da vida, os que chegaram tarde e os que partiram cedo demais, deixo minha gratidão pela presença nos momentos em que eu não era uma companhia fácil. Vocês ficaram quando eu não tinha respostas, quando estava cansado e quando não estava vencendo, e foi com vocês que aprendi que amizade não exige constância perfeita, mas algum reconhecimento mútuo mesmo quando a vida muda a gente. Alguns caminhos se separaram, outros não resistiram ao tempo, e isso não apaga o que houve de verdadeiro entre nós.

Houve perdas que eu não soube evitar, relações que não sobreviveram às escolhas necessárias e pessoas que amei, mas ainda assim precisei deixar ir. Nem todas as decisões me deixaram orgulhoso; algumas apenas me permitiram continuar fiel ao que eu sentia, e hoje consigo aceitar isso.

Amei do jeito mais honesto que consegui, embora nem sempre tenha sido o mais confortável para mim ou para quem estava ao meu lado. Amei quando fiquei e também quando precisei ir embora, quando o silêncio pareceu mais verdadeiro que qualquer explicação e quando dizer “sim” significaria me perder. Sei que isso pode ter me feito parecer difícil, frio ou exigente, mas nunca fui ausente por falta de sentimento. Talvez eu apenas não tenha sabido viver relações pela metade sem abrir mão de uma parte de mim.

Não peço desculpas por ter tentado me respeitar, embora saiba que minhas escolhas também possam ter machucado alguém. Deixo uma gratidão profunda por quem conseguiu caminhar comigo sem tentar me diminuir, moldar ou simplificar, por quem me viu inteiro, inclusive nas contradições, e ainda assim escolheu ficar.

Não peço para ser lembrado, porque memória é um peso grande demais para deixar nos outros. Importa o que foi vivido enquanto era possível e, se minha passagem fez alguém se sentir menos sozinho em algum momento, já há sentido nisso. Não mais forte ou mais produtivo, apenas menos só.

A vida nunca foi um plano, uma estratégia ou um currículo emocional bem organizado; foi um acontecimento frágil, imprevisível e bonito demais para ser tratado como projeto. Se eu tivesse de partir hoje, gostaria de saber que não virei personagem de mim mesmo, que permaneci humano num mundo que recompensa máscaras e que, apesar dos erros, vivi com verdade suficiente para não precisar negar quem fui.

Mas hoje não é meu último dia

Dizer isso não diminui nada do que escrevi até aqui. Há momentos em que a vida parece terminar antes de acabar, quando algo se rompe de um jeito que não admite retorno e a gente entende, no fundo, que a versão antiga da vida não volta mais. O tempo não conserta tudo; algumas feridas atravessam fundo demais para desaparecer e permanecem conosco, mesmo quando aprendemos a seguir.

Eu estou sofrendo. Há ausências que ainda ocupam espaço, perdas que ainda pesam e dias em que seguir exige mais coragem do que qualquer discurso sobre força. Não quero transformar essa dor em virtude nem fazer dela uma história bonita para contar depois, porque agora ela é real, e real dói.

Mesmo quando não há conserto, há continuação. A vida não suspende o movimento porque algo se perdeu para sempre, mas também não me pede pressa, desempenho ou uma cura para mostrar aos outros. O que ela pede hoje é que eu fique, atravesse o que estou vivendo sem endurecer e não faça da dor um endereço fixo.

Hoje não é meu último dia e, apesar de tudo, eu escolho continuar, respeitando o tempo que isso leva e aceitando que algumas marcas talvez sigam comigo. Elas lembram o que foi importante, mas não precisam definir tudo o que ainda posso viver. Não sei exatamente como vou superar esta fase, nem preciso fingir que a vida que vem pela frente já está clara; por enquanto, basta não me abandonar enquanto descubro o próximo passo.

Se você também chegou a um ponto em que algo se quebrou, eu não vou dizer que passa rápido ou que tudo acontece por uma razão. Só sei que uma perda não encerra necessariamente a nossa história, mesmo nos dias em que continuar parece mais do que conseguimos fazer. Hoje, a minha escolha é ficar, um dia de cada vez.

Eu estou ficando. Se puder, fica também.


Dica de leitura:

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