A Ferrari que eu nunca comprei

Como um post reflexivo desencadeou uma das maiores trollagens que eu já fiz.

Antes de qualquer coisa: eu não comprei uma Ferrari. Repito pra família, pros amigos, pro gerente do banco e, principalmente, pra Receita Federal: não comprei uma Ferrari.

Agora que o meu CPF tá fora de perigo, aperta o cinto que lá vem a história.

Semana passada postei no Instagram a foto de uma Ferrari de verdade, estacionada numa garagem, com uma legenda dizendo que a gente trabalha muito pra realizar nossos sonhos e, pra fechar, uma frase do Ferris Bueller, de Curtindo a Vida Adoidado: a vida passa rápido demais, e se a gente não parar de vez em quando pra aproveitar, acaba perdendo o melhor dela.

Na minha cabeça, o carro era só uma lembrança do filme, que tem uma das Ferraris mais famosas do cinema, e o post era reflexivo, desses que eu sempre faço.

Só que Ferrari de verdade + “realizar nossos sonhos” + “aproveitar a vida”… olhando agora, faltou só a chave na mão e a fitinha vermelha. E foi assim que parte da galera entendeu: o Lelinho comprou uma Ferrari.

Em minutos, choveu mensagem de gente me dando parabéns e, antes do almoço, minha caixa de entrada do Instagram já tinha saído do controle, sem a menor chance de responder todo mundo. Teve de tudo, e aposto que tem gente até agora se perguntando de onde eu arrumei dinheiro pra comprar um carrão desses.

Fui conversar com um amigo sobre a repercussão e disse que ia postar outro story explicando tudo, porque a coisa já tava ficando grande demais. Ele cortou na hora: “Desmente não. Dá corda.” Bastou ele botar pilha pra eu, que já gosto de uma sacanagem, entrar no personagem.

À tarde, botei fogo na história: postei mais quatro stories, agora sim de propósito, pra dar aquele empurrãozinho na ideia de que eu tinha comprado o carro.

Fiz tudo rápido, com IA e sem perder muito tempo editando, mas uma montagem fez toda a diferença: a máquina estacionada na garagem da minha casa. E a casa é real. Ficou bem feito, mas não perfeito, tinha umas pistas ali pra quem olhasse com mais atenção.

Alguns sacaram na hora. Outros, não.

No meio disso tudo, recebi mensagem até de gente da minha família, e eu, ainda no personagem, confirmava tudo. Desse jeito, quase ninguém ia parar pra procurar defeito em foto, e as mensagens seguiram chegando até a noite, com as visualizações lá nas alturas.

Lá pelas tantas, uma pessoa repostou meu story comemorando a minha conquista, e o sentimento dela era real, sem desconfiar de nada. Quando eu vi aquilo, pensei: opa, isso aqui tá começando a sair do meu controle.

Esse alerta tava ligado desde o começo, tanto que a ideia sempre foi a zoeira durar um dia só, mas ali ele ficou ainda maior, porque eu sei bem o estrago que uma fake news faz.

Então, no dia seguinte, a aventura chegou ao fim e era hora de voltar pra realidade. Como não dava pra contar a história verdadeira pra todo mundo no mesmo dia, fui fazendo isso aos poucos, começando por quem eu mais troco ideia, e as reações foram as mais diversas:

  • A turma do “eu sabia!”, que desconfiou desde o primeiro story. Pelo menos é o que eles juram.
  • Quem caiu feio e mandou um “Mentira, Lelinho! Seu filho da mãe, você me enganou!”
  • Os curiosos, que não tavam nem aí pro carro e só queriam aprender a gerar aquelas imagens. Quem sabe um dia rola um tutorial. Até lá, se alguém aparecer de iate nos stories, a culpa não é minha.
  • Quem não entendeu a brincadeira e ficou P da vida. Essa turma, eu tenho certeza, só vai acreditar numa próxima conquista minha se eu apresentar a nota fiscal.

Pra quem ficou P da vida: foi mal, de verdade. Era tudo parte da trollagem, mas eu entendo que nem todo mundo achou graça, e tá tudo bem. Se você é um deles e só tá sabendo agora, o pedido vale pra você também.

Essa história toda me lembrou de uma cena do filme que, pra mim, explica rede social melhor que muito curso de marketing.

Sabe a parte em que o Cameron fica parado no museu encarando um quadro do Seurat? A câmera vai chegando cada vez mais perto e, quanto mais perto, menos dá pra entender: de longe, é uma tarde bonita num parque; de perto, é só um monte de pontinho.

Rede social é exatamente isso. A gente vê uns pontinhos da vida de alguém, um story aqui, uma foto ali, e monta o quadro inteiro na cabeça, mesmo que ele nem exista.

E olha que eu trabalho com marketing: entendo o potencial das redes, o poder de construir uma narrativa e as consequências que isso pode ter. Mas prefiro usar tudo isso sem me deixar levar, porque essa é a minha forma de lidar com essas ferramentas, e respeito quem enxerga diferente.

Olhando o quadro inteiro dessa história, o que mais me surpreendeu foi outra coisa: nas redes sociais de hoje, com tanta polarização, tanto hater e tanta intolerância, onde às vezes é difícil até ter diálogo, receber esse carinho foi muito bom, mesmo vindo de uma brincadeira.

E não, isso aqui não é um manual de como viralizar, nem uma tentativa de romantizar trollagem. A Ferrari eu nunca comprei, mas aquele dia, com as risadas, as mensagens e até as broncas, ninguém tira de mim. No fim, é isso que fica: não o que a gente mostra, e sim o que a gente vive.

Por isso eu sigo no estilo do Ferris, levando as coisas menos a sério, brincando com responsabilidade e sem perder a minha essência. A vida passa rápido demais, e, enquanto eu puder, vou parar de vez em quando pra aproveitar, independente de qualquer julgamento.

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