A farsa da Autonomia em squads: Orwell estava certo

Autonomia? Orwell já te contou como essa história termina. Squads livres demais para obedecer e ágeis o bastante para não questionar.

Em A Revolução dos Bichos, George Orwell constrói uma fábula sombria sobre poder, manipulação e a fragilidade das promessas revolucionárias. Os bichos da fazenda, cansados da opressão dos humanos, decidem tomar o controle. A ideia era simples: todos seriam iguais, livres e donos de si. Mas, ao longo da narrativa, a utopia se desfaz. Os porcos assumem o comando e, pouco a pouco, constroem uma nova forma de dominação. Mais sutil, mais simbólica, mas igualmente cruel.

Troque a fazenda pela empresa. Os porcos pelo comitê de líderes. E a revolução pelo squad ágil. O paralelo é inevitável.

Orwell, autonomia e a revolução que virou roteiro

Vivemos uma era onde a palavra “autonomia” virou mantra. Todo squad nasce com a promessa de ser autogerido, empoderado, multidisciplinar. O discurso é bonito: “vocês têm liberdade para decidir”, “são donos do problema”, “podem experimentar”. Mas, na prática, essa autonomia costuma ser vigiada de perto, moldada por interesses invisíveis e por expectativas que nunca chegam com clareza.

Tal como os bichos da fazenda, os squads também aprendem que nem toda promessa de liberdade significa, de fato, liberdade. O poder de decisão existe desde que siga o roteiro. Você pode escolher, desde que não questione a narrativa. Pode propor, desde que não interfira na ordem já estabelecida.

O cenário é comum: times pequenos com a promessa de decidir, inovar, experimentar. Só que a cada passo, o Product Manager precisa consultar “o comitê”. O designer precisa justificar por que ousou mudar um botão. O time técnico tem que explicar cada hora investida em refatoração. E a tal autonomia vira um teatro: o time parece livre, mas todos sabem quem realmente dita as regras.

A cultura da obediência se disfarça de alinhamento estratégico. A ausência de escuta se camufla sob o pretexto de foco. Qualquer tentativa real de questionar estruturas ou prioridades é taxada de distração. O squad se torna uma república autônoma… subordinada a um backlog que já chegou pronto.

Orwell escreveu: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.”

Nas empresas de hoje, poderíamos adaptar: “Todos os squads são autônomos, mas alguns têm mais autonomia que os outros.” Ou pior: nenhum tem, mas fingem que sim.

Da revolução ao teatro: a autonomia segundo Orwell

A falsa liberdade é mais perversa que o controle explícito. Porque confunde. Porque faz o time acreditar que o problema está nele, não na estrutura. Isso gera culpa, frustração e um esgotamento que ninguém coloca nos relatórios.

O time acha que está errando, quando, na verdade, nunca teve espaço real para pensar diferente. As retrospectivas viram cerimônias simbólicas. As dinâmicas de cocriação são travadas por restrições impostas de cima. O squad entrega, melhora KPIs, responde OKRs… mas não sente que tem voz.

O Manifesto Ágil nasceu como um grito de ruptura. Mas foi domesticado. Virou framework, modelo de governança, checklist de consultoria. A revolução perdeu força para os processos. Os valores cederam lugar aos ritos. E o que deveria ser construído com pessoas virou mais um sistema que mede, cobra, empilha metas e segue em frente.

Como na fazenda dos bichos, o discurso mudou. O vocabulário também. Mas o sistema continua exigindo obediência, disfarçada de colaboração.

E que fique bem claro. Este texto não é um ataque ao modelo de squads. Pelo contrário. É uma defesa crítica do seu potencial desperdiçado. Inspirado em Orwell, o alerta aqui é sobre a distância crescente entre o que se promete como liberdade e o que se pratica como obediência decorada.

Squads com poder real criam produtos melhores, resolvem problemas complexos e desafiam o status quo. Mas, para isso, precisam de escuta, confiança e espaço para errar sem retaliação.

Uma equipe é forte quando pode recusar um caminho. Quando tem liberdade para reavaliar prioridades. Quando levanta dúvidas e é ouvida. Quando sabe que sua perspectiva molda decisões, não apenas executa tarefas pré-aprovadas.

Ambientes que anunciam autonomia, mas silenciam o pensamento crítico, cultivam cinismo. E ninguém constrói o novo quando precisa fingir que acredita no velho.

Se você lidera, pergunte-se: meu time se sente seguro para discordar?

Se você está num squad, questione: a liberdade que dizem que tenho… é real ou ensaiada?

E se tudo parece seguir como deveria, mas nada realmente muda, talvez seja hora de observar o que foi sendo reescrito, riscado ou esquecido no mural de valores da empresa.

Nem sempre é preciso uma revolução para transformar um sistema. Às vezes, o que inicia a mudança é o desconforto silencioso de quem finalmente enxerga. E decide que não vai mais ignorar o que todo mundo finge não ver.

Se esse texto fez sentido para você, compartilhe com seu time, com quem está na trincheira do produto ou lidando com as tensões invisíveis do dia a dia. Comente, critique, provoque porque é assim que a gente amplia a conversa e desafia estruturas que se repetem sem serem notadas.


Dica de leitura:


Se quiser seguir nessa caminhada comigo, acompanha os próximos textos aqui no blog. Prometo continuar trazendo reflexões honestas, sem fórmulas prontas, só o que realmente importa.

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