Eu sempre achei que precisava ter medo dos meus momentos de fraqueza. Medo de quando eu me sentia inseguro, cansado, duvidando das minhas decisões. Achava que era ali que eu podia errar feio. Que era ali que eu podia comprometer tudo o que estava tentando construir.
Mas, olhando para trás, percebi que meus maiores riscos não vieram quando eu estava no chão. Vieram quando eu estava de pé e sendo aplaudido.
Teve uma fase em que um projeto importante deu certo. Reconhecimento veio. Convites vieram. Pessoas passaram a validar publicamente algo que eu tinha construído com muito esforço. Eu me sentia seguro, preparado, confiante nas minhas escolhas. E foi justamente ali que comecei a responder mais rápido do que precisava. A interromper opiniões antes de escutar até o fim. A defender pontos que nem estavam sendo atacados.
Não era maldade. Era ego.
Eu não estava fraco. Eu estava forte demais.
Na noite do Oscar, após subir ao palco e dar um tapa em Chris Rock, Will Smith voltou ao seu lugar visivelmente abalado. Durante o intervalo comercial, Denzel Washington se aproximou e disse: “No seu momento mais alto, tome cuidado, é quando o diabo vem atrás de você.” Eu ouvi essa frase na época como quem ouve tantas outras que circulam na internet. Só muito tempo depois, revisitando minhas próprias atitudes e silêncios, ela começou a me incomodar de verdade.
Quando eu estive fraco, eu era mais atento. Pensava antes de falar. Media reações. Escutava com mais humildade. A dor me deixava lúcido. O medo me deixava prudente. O fundo obriga você a ser honesto consigo mesmo.
O topo não obriga nada.
O topo dá aplauso. Dá validação. Dá uma sensação sutil de que você já aprendeu o suficiente. De que já superou suas falhas mais perigosas. De que agora pode agir no impulso porque construiu crédito. E é nesse ponto que você começa a escorregar sem perceber.
Existe uma euforia na conquista. Uma energia que mexe com a identidade. Você começa a se enxergar como a versão resolvida de si mesmo. E quando acredita que está resolvido demais, para de revisar o próprio comportamento.
Eu já confundi convicção com rigidez. Liderança com controle. Segurança com superioridade. Não de forma caricata, mas de forma sutil. Pequenas impaciências. Pequenas respostas atravessadas. Pequenos silêncios que não eram maturidade, eram arrogância disfarçada.
Nada que parecesse grave isoladamente. Mas suficiente para me mostrar que o risco não mora na queda. Mora na altitude.
O diabo, nessa metáfora, não vem para quem está quebrado. Ele vem para quem começa a acreditar que não pode mais quebrar. Ele aparece quando você se sente invencível. Quando você acha que já provou o suficiente para relaxar o caráter. Competência leva você até o topo. Caráter é o que impede que você se destrua lá.
Hoje, quando algo dá muito certo, eu tento fazer o contrário do que a euforia pede. Desacelero. Escuto mais do que falo. Relembro erros antigos. Peço opinião mesmo quando acho que não preciso. O fundo me ensinou humildade. O topo me ensinou vigilância. Agora eu tento viver entre os dois. Nem com medo da queda, nem seduzido pela altitude. Só em equilíbrio.
E se você estiver vivendo um momento alto agora, eu não diria para você ter medo. Eu diria para você prestar atenção. Observe como você responde às pessoas. Observe se você ainda escuta como escutava antes. Observe se a sua segurança virou pressa ou se a sua confiança virou dureza.
O problema nunca foi cair. Quase todo mundo cai. O problema é achar que você já está acima da queda.
Talvez o auge não seja um prêmio. Talvez seja um espelho. E ele mostra não o que você conquistou, mas quem você se torna quando conquista.
E nem todo reflexo é confortável de encarar.
Dica de leitura:
- O jogo infinito – Simon Sinek






Seu texto é um ensinamento prático de que viver exige manter os pés no chão, sempre calçados com as sandálias da humildade. Salomão é a prova viva de que a vaidade/ego conduz à queda