Ser produtivo demais pode custar caro
Por muito tempo, achei que estava no caminho do sucesso profissional. Sempre ocupado, sempre dizendo “sim”, cheio de prazos, tarefas e reuniões. As pessoas diziam que eu era produtivo, que eu era exemplo. Mas ninguém via o que isso estava me custando por dentro. Eu estava sobrecarregado, esgotado, ansioso e deprimido.
Demorei para entender que aquele “comprometimento” que elogiavam era, na verdade, um aviso. Um grito disfarçado. Até que o corpo travou. A mente parou. E o colapso veio.
Burnout não é frescura. Não é sinal de força. É doença. E o mais assustador é que muita empresa trata isso como algo normal. Ou pior: como prova de mérito. A cultura de “dar conta de tudo” virou regra. Dormir pouco, ignorar limites, deixar a vida pessoal de lado, tudo isso passou a ser visto como sinal de sucesso.
Mas… sucesso para quem?
Esse ritmo cobra caro. Insônia. Crises. Remédios. Afastamentos. Relacionamentos que desmoronam. A carreira pode até seguir. Mas a saúde emocional vai embora, aos poucos.
O mais bizarro é como ainda existe esse olhar torto no mercado. Trocar sono por e-mails? Comprometido. Estar sempre no limite do estresse? Resiliente. Mas ninguém pergunta o que está sendo destruído para manter essa aparência de eficiência.
Eu vivi isso. E vi outros vivendo também.
Essa lógica adoece. Não só quem entra nela, mas todo mundo ao redor. Vai contaminando as equipes. Vai deixando o ambiente pesado. Férias viram sinal de preguiça. Dizer “não” vira fraqueza. Admitir cansaço parece falta de gratidão.
E não é só percepção, não. Tem dado. Uma pesquisa da Mindsight mostrou que 86% das empresas no Brasil não têm nenhuma ação real para prevenir burnout. E 87% dos profissionais já se sentiram sobrecarregados pelos próprios líderes.
Mesmo assim, sabe o que muita empresa anda fazendo? Campanha de saúde mental. Post com frase bonita. Hashtag inspiradora. Enquanto isso, continuam exigindo jornadas abusivas, metas absurdas e gente 100% disponível o tempo todo.
Tudo tem que estar no ar. Menos o cuidado com quem está segurando tudo nas costas.
Eu precisei quebrar para entender.
Em 2019, passei por uma depressão tão profunda que cheguei a considerar desistir de tudo. Foi nesse momento que entendi, de verdade: no trabalho, ninguém é insubstituível. Mas na própria vida, é. Saúde mental não pode ser só um detalhe bonito em evento de “bem-estar”. Ela precisa ser prioridade real, no centro de todas as escolhas.
A partir disso, comecei a mudar. A me escutar mais. A aprender a dizer “não” sem culpa. E principalmente respeitar meus limites. Por um tempo, isso funcionou. Eu me reconectei com o que realmente importava. Comecei a cuidar de mim, descobri o remo e criei uma rotina que me dava energia.
Mas, aos poucos, fui sendo seduzido pela ideia de sucesso. Sem perceber, deixei de lado o que me fazia bem. A rotina de treino sumiu. Os encontros com amigos ficavam sempre para depois. Meu único foco virou resolver problemas em busca de algo que nem eu sabia mais o que era.
Vieram as cobranças silenciosas. As noites mal dormidas. A sensação constante de estar devendo para alguém, o tempo todo. Quando percebi, estava lá de novo: cansado, impaciente, emocionalmente exausto. E o mais difícil foi perceber que estava à beira do mesmo abismo de onde prometi nunca mais me aproximar.
E que fique claro: não foi nenhum projeto ou empresa que me forçou a cair nesse ciclo. O erro foi meu. Subestimei minha mente. Ignorei o plano que estava me fazendo bem.
Hoje eu sei: preciso cuidar de mim. Não quero mais trocar meu sono por preocupação. Nem carregar o peso do mundo nas costas. Me colocar por último virou rotina. Mas essa rotina me consumiu aos poucos.
O que eu quero agora é simples: respirar com calma. Rir com os amigos sem pressa. Encontrar meu ritmo no remo e na vida. Redescobrir o valor das pausas, da leveza dos dias sem cobrança. E esse é o alerta que eu deixo: nunca deixe o sucesso, a produtividade ou a pressão te afastarem de quem você realmente é.
Eu ainda amo o que faço. Mas não quero mais me perder por isso.
Chega.
Minha sanidade vale mais do que qualquer projeto. Minha paz vale mais do que receber reconhecimento no fim do dia.
A partir de hoje, essa será uma das minhas bandeiras. Falar sobre saúde mental com verdade, sem medo ou vergonha. Porque quebrar o silêncio virou parte do meu propósito. Tem muita gente sofrendo calada, achando que perdeu o brilho, o valor, a vontade de seguir. Mas não é fraqueza. É só cansaço. Um cansaço profundo de tentar ser tudo, o tempo todo, para todo mundo. Se minha voz puder aliviar esse peso em alguém, então já faz sentido.
Se você sente que está no limite, entre o “tô dando conta” e o “não aguento mais”… você não está só. E você não precisa continuar assim.
Falar sobre burnout, depressão e ansiedade não é tendência. É um ato de resistência. É enfrentar um sistema que adoece em silêncio e cobra força onde já não há mais fôlego.
Parar de romantizar o sofrimento é o primeiro passo para uma forma de viver e trabalhar mais humana, mais justa, mais saudável.
Para encerrar, deixo um trecho que sempre me faz pensar. Um diálogo entre Frodo e Gandalf, em O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel.
Como se recupera a sua vida antiga?
Como é que se continua?
Quando, em seu coração, você começa a entender que não há volta.
Há certas coisas que o tempo não pode consertar, alguns machucados que vão tão fundo que serão eternos.
Essas palavras me lembram que, às vezes, a maior batalha é por dentro. E que voltar a ser quem eu era… já não é mais uma opção.
Mas talvez, só talvez, isso seja a chance de me reconstruir.
Não para ser o que eu era.
Mas para ser alguém inteiro.
Mais consciente.
E, acima de tudo, mais vivo.
Dica de leitura:
- A coragem de ser imperfeito: Como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser quem você é.
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