Você investiu meses no desenvolvimento. Reuniões, testes, protótipos, sprints. Cada detalhe ajustado. O time bateu palmas. A liderança vibrou. Você lançou. E… silêncio.
As pessoas não usam. Ou pior: nem sabem que o produto existe.
Parece piada, mas tem nome, cheiro e gosto de frustração. Afinal, como algo tecnicamente bom, funcional, com design caprichado, cheirando a inovação… pode morrer ignorado?
Pois é. Porque não basta ser bom. Tem que ser desejado. Tem que resolver algo que importa. E, principalmente, precisa ser percebido como necessário por quem vai usar.
Essa história se repete mais do que gostaríamos de admitir, inclusive em empresas gigantes, com times brilhantes e orçamentos milionários. O erro? Criar sem ouvir. Lançar sem validar. Empurrar soluções para quem não pediu nada.
A falácia do “se eu fiz, vão usar”
Existe uma armadilha perigosa no mundo de Produto: acreditar que o mercado vai se render à genialidade do time. Que se o código estiver limpo, o design for bonito, e a experiência fluída… o sucesso é inevitável.
Infelizmente não é.
Mas a verdade é que o cemitério de produtos está lotado de bons exemplos de fracasso. Não por falta de capacidade técnica, mas por falta de conexão com o usuário.
Exemplos que doem ou deveriam doer:
- Threads (by Instagram): criado para ser o “Twitter melhorado” durante o colapso da plataforma de Elon Musk. Explodiu em downloads no início. Depois… esvaziou. Porque não bastava parecer com o Twitter, precisava ter propósito, engajamento e contexto.
- Clubhouse: o hype da pandemia “próximo grande aplicativo”. Exclusividade, convites, salas de áudio… e depois? Cansou. Ninguém quer passar horas ouvindo desconhecidos. O hype virou tédio.
- Google Wave: revolucionário, complexo, promissor. Ninguém entendeu. Nem os usuários, nem o mercado. Resultado: descontinuado.
- Microsoft Zune: lindo, estável, com integração nativa ao Windows. Mas lançado num mundo já dominado pelo iPod e pelo iTunes. Não era questão de qualidade. Era de timing, ecossistema e desejo.
- Quibi: bilhões investidos, grandes nomes, tecnologia de ponta… e ninguém disposto a pagar por vídeos verticais de 10 minutos. O problema não era técnico, era cultural.
- ENEM: Um aplicativo bom, útil e funcional. Mas não foi divulgado. Não foi integrado à rotina do estudante. Era como uma biblioteca trancada. Está lá, mas ninguém entra.
- Skol Beats Senses: O aplicativo foi lançado para “potencializar experiências da balada”. Parecia futurista, gamificado, integrava com redes sociais… mas ninguém entendeu o valor. Era confuso, sem propósito real, e sumiu sem deixar saudade.
Esses fracassos (ou semi-fracassos) não foram causados por times ruins.
Nem por falta de tecnologia. Foram causados por desconexão com o momento, a maturidade e o desejo do público.
Não adianta construir uma ponte se ninguém precisa atravessar. E nem avisar que ela existe.
O erro está antes do código
O maior problema não está no backlog. Está na fase anterior: na ausência de validação real antes de começar a escrever uma linha de código.
- É o desespero por lançar “algo novo”.
- É a vaidade disfarçada de inovação.
- É o ego do time falando mais alto que o cliente.
Construímos features lindas que ninguém usa. Criamos jornadas sofisticadas que ninguém percorre. E quando dá errado, é mais fácil culpar o marketing, a concorrência ou o “usuário desatento” do que assumir que construímos no escuro.
Ouvimos pouco. Iteramos menos ainda.
A cultura de Produto precisa de uma intervenção.
Ainda tratamos discovery como um ritual, não como comportamento. Fazemos entrevistas para preencher o framework. Rodamos pesquisas para validar o que já acreditamos. E chamamos isso de “dados”.
Lançamos MVPs que nunca são revisitados. Design sprints viram teatro ágil. KPIs são maquiados para parecer que estamos aprendendo quando, na verdade, só estamos empurrando a verdade para debaixo do tapete.
E o usuário? Continua fora da sala.
Enquanto isso, todo dia nasce mais um produto bom… condenado ao esquecimento.
Como não cair nessa armadilha?
Quer mudar isso? Então pare de usar o cliente como figurante. E traga ele para o palco:
- Construa com, não para: envolva o usuário desde o início. Não basta fazer entrevista. Faça junto. Co-crie.
- Valide o problema, não só a solução: tenha certeza de que o problema é real, urgente e doloroso. Não crie remédio para dor que ninguém sente.
- Teste desejo, não só usabilidade: se o produto é fácil de usar, mas ninguém tem vontade de abrir… ele continua sendo inútil.
- Itere com base em uso real: se não estão usando, tem coisa errada. Não é teimosia do usuário. É falta de escuta do time.
- Mate ideias boas com coragem: nem toda ideia boa deve ir para o mundo. Algumas são boas no papel. Outras… para outro momento. E tudo bem.
Um chamado à comunidade de Produto
Está na hora de mudar a cultura.
Chega de cultuar MVPs que nunca viram iterações. Chega de lançar sem ouvir. A fase de escalar sem base acabou. Precisamos trocar o “feito é melhor que perfeito” por “desejado é melhor que funcional”.
Porque produtos só vivem quando são usados. Só fazem sentido quando resolvem algo real. Só sobrevivem quando tocam a vida de alguém.
E da próxima vez que você olhar para um produto tecnicamente impecável, mas que ninguém usa, não diga que o mercado não entendeu.
Pergunte-se:
A quem isso realmente serve?
E por que essa pessoa não sente falta?
Se a resposta for vaga, conveniente ou baseada em suposição, talvez o erro não esteja no mercado, mas na nossa falta de escuta.
Dica de leitura:
- Inspirado: Como criar produtos que os clientes amam — Marty Cagan
- Incrível: A verdade por trás das pessoas de produto — Bernard De Luna
- Lean Inception: Como alinhar pessoas e construir produto — Paulo Caroli
Se você chegou até aqui, valeu demais por dedicar seu tempo. Se esse texto fez sentido, manda para alguém que também vive mergulhado nesse universo de produto, marketing e tecnologia.
Toda semana, tem conteúdo novo por aqui com provocações, aprendizados reais e aquela dose de desconforto que move a gente para frente.





