O talento do outro não é o problema

O problema começa quando o talento deixa de ser visto como uma vantagem e passa a ser tratado como incômodo.

Eu tenho o hábito de prestar atenção no que as pessoas que sigo compartilham no Instagram. Tem de tudo: mensagem otimista para começar o dia, conteúdo sobre algum lançamento, novidade de mercado, desenvolvimento profissional, ranking da Forbes e por aí vai. Passo por muita coisa sem pensar muito, mas quando alguém compartilha uma frase que provoca alguma reflexão, normalmente paro um pouco mais.

Foi assim com uma que li esses dias: “Quando encontrar alguém mais inteligente que você, trabalhe com essa pessoa, não contra ela. Perto dos bons, você se torna melhor.” A frase me lembrou várias situações que já vi ao longo da minha trajetória profissional e acabou puxando uma reflexão bem simples: trabalhar com gente talentosa parece uma vantagem até o talento do outro começar a mexer na dinâmica do grupo, nos espaços que cada um ocupa e na forma como algumas pessoas enxergam o próprio valor.

O que o mercado costuma pregar é justamente isso: devemos buscar gente boa, dar espaço para quem sabe mais, juntar pessoas capazes e criar ambientes onde elas possam contribuir de verdade. A própria frase parte dessa lógica, e parece até estranho discordar dela. O problema é que, na prática, essa abertura nem sempre dura quando alguém começa a se destacar, ganhar respeito, questionar coisas antigas ou ocupar um espaço que antes parecia bem definido.

O boicote nem sempre aparece como ataque ou tentativa de desmerecer alguém. Muitas vezes ele é bem mais discreto e nasce justamente do incômodo que o talento provoca na dinâmica do grupo. Quando a presença de uma pessoa começa a mexer em espaços, influências ou relações que pareciam bem resolvidas, aquilo que deveria ser uma vantagem pode começar a encontrar resistência.

É nesse ponto que a política do dia a dia pode escorregar para a politicagem. Não precisa ter vilão nem plano secreto, basta começar a tratar colaboração como disputa e colega como concorrente. A energia que poderia estar sendo usada para somar conhecimento passa a ser usada para proteger território, preservar influência ou garantir que ninguém cresça rápido demais.

Liz Wiseman fala em Multiplicadores sobre pessoas que conseguem fazer quem está por perto render mais, pensar melhor e usar melhor o próprio talento, sem precisar provar o tempo inteiro que são as mais inteligentes da sala. O que eu gosto no livro é justamente essa ideia de que gente boa não deveria ser vista como ameaça, mas como uma força que aumenta a capacidade de todo mundo ao redor. Se alguém sabe algo que eu não sei, eu posso aprender; se faz melhor do que eu, posso observar; e se pensa diferente, posso discordar sem precisar apagar essa pessoa da conversa.

É claro que a liderança tem responsabilidade nisso também. Quando percebe panelinhas, exclusões ou disputas de espaço e deixa tudo seguir como se fosse apenas “jeito do time”, acaba ajudando esse comportamento a crescer. Mas reduzir o problema ao gestor seria confortável demais, porque muitas dessas pequenas sabotagens começam entre pares, nas relações mais comuns do dia a dia, justamente onde ninguém parece ter poder suficiente para estar sabotando ninguém.

E eu também preciso me colocar nessa crítica, porque escrever sobre esse comportamento é muito mais fácil do que perceber quando a gente está fazendo a mesma coisa. Eu posso defender que trabalhar com gente talentosa é uma vantagem e, ainda assim, me incomodar quando alguém chega com uma ideia melhor, ganha espaço ou começa a ser mais ouvido. O cuidado está justamente aí: perceber esse incômodo antes de começar a inventar bons argumentos para ignorar, frear ou deixar alguém de fora.

Talento não precisa ser elogiado o tempo inteiro, nem toda ideia merece ser aceita e ninguém deve estar acima de crítica. O problema começa quando deixamos de avaliar o trabalho e passamos a administrar o espaço que aquela pessoa ocupa.

Se o talento do outro incomoda mais do que ajuda, vale olhar menos para o tamanho dele e mais para o motivo de isso incomodar tanto.

E você? Quando alguém sabe mais, prefere aprender e crescer ou se incomoda com isso?


Dica de leitura:

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